Frei Miguel Hernández e uma conversa para edição de julho do Semente de União

Uma breve conversa com Frei Miguel Hernández

Durante as festividades de Santa Rita de Cássia, nossa paróquia re­cebeu a visita de frei Miguel Hernán­dez, prior da Província Santo Tomás de Vilanova, à qual os religiosos de nossa paróquia estão vinculados. Pe­dimos um espaço em sua agenda para um bate-papo e, da conversa serena, surgiram temas como vocação, servi­ço e missão, a reestruturação da Or­dem dos Agostinianos Recoletos e as atividades atuais, tanto de frei Miguel quanto da província.

Natural da pequena cidade de Villal­ba, a 40 quilômetros de Madri, frei Miguel tinha vários religiosos na famí­lia – entre eles, três tios agostinianos recoletos. Logo após ser ordenado presbítero, foi chamado para o Bra­sil, na antiga Província Santo Tomás de Vilanova. Morou aqui por 16 anos, conciliando as funções de formador e vigário provincial com a atividade pas­toral. Eleito prior provincial em 2006, foi chamado de volta à Espanha, e re­tornou para cá após 12 anos, com a reestruturação da Ordem.

Frei Miguel, conte-nos um pouco de sua história. Como se tornou um religioso agostiniano?

Nasci há 54 anos em uma família simples, da cidade de Villaba, na região de Madri. Sou o caçula de três irmãos. Meus pais, que ainda são vivos, têm religiosos na família – por parte de pai, três tios eram agostinianos recoletos. Destes, um ainda está vivo. Por parte de mãe, também há uma tia religiosa.

Depois que recebi o Crisma, comecei a participar de grupos de jovens, com a família vicentina. Com o tempo, fui percebendo, assim… como que Deus pedia alguma coisa a mais de mim, que não me satisfazia por completo a vida que eu levava. Então comecei a dar os passos. Claro, no momento de me decidir, eu falei com um dos meus tios e ele me encaminhou para a Ordem do Agostinianos Recoletos.

Foi assim que entrei na ordem como seminarista, estudei os dois últimos anos do secundário e, no ano de 1984, fiz os primeiros votos como religioso. Estudei filosofia e teologia numa cidade chamada Burgos, no norte da Espanha, e fui ordenado sacerdote no ano de 1990, em Madri, numa paróquia chamada Santa Mônica. Isso foi em 30 de junho e no dia 21 de setembro desse mesmo ano eu estava chegando ao Brasil, no Rio de Janeiro. Fiquei no Rio por três meses, estudando português, e depois me destinaram a São Paulo, para a paróquia São João Batista, no Jabaquara.

Formador e missionário – Depois de um ano, surgiu a necessidade de um formador em Belém do Pará. Então, eu fui a Belém do Pará em 1992, e fiquei até o ano 2000, como formador do seminário menor. Mas também tive uma rica experiência pastoral, porque é uma paróquia muito viva, muito movimentada. Então, além das minhas atividades no seminário, trabalhei bastante com os jovens, com encontros, retiros de carnaval, Páscoa jovem… Inventei de tudo nesse período para tentar levar Deus para essa juventude. Até hoje tenho amigos dessa época, que fazem festa cada vez que apareço por lá.

Depois de Belém, me escolheram como vigário provincial. Fiquei responsável pelas casas no Brasil da antiga Província Santo Tomás de Vilanova, antes da unificação. Fiquei como vigário da Província de 2000 até 2006. Passei a morar no Rio de Janeiro, e a minha missão era ser animador da vida religiosa das comunidades do Brasil. Apesar de ficar de ficar em um cargo de autoridade, nunca me desliguei da atividade pastoral. Acompanhei também os jovens, a Crisma, além dos momentos de espiritualidade da paróquia Santa Mônica.

Retorno à Espanha – Quando concluí os seis anos como vigário no Brasil, tivemos o capítulo provincial e fui eleito prior provincial. Aí, fui transferido para a Espanha. A sede da província estava em Madri, e permaneci seis anos como provincial. Aí o campo de trabalho foi ampliado, pois fiquei responsável pelas comunidades da Espanha, da Venezuela, da Argentina e do Brasil. Claro que, em cada país, há um vigário provincial que ajuda o prior na administração das comunidades.

Em 2012, o Prior Geral passou pela cúria provincial e me pediu que providenciasse um religioso para fazer parte da equipe do noviciado, no mosteiro de Monteagudo, no sul da Espanha. Como estava se aproximando o capítulo provincial e eu não poderia ser eleito novamente, me ofereci: “Se quiser, eu posso ir para lá”. Foram três anos que fiquei, como digo, praticamente num mosteiro, um convento, em um lugarejo de mil habitantes, me restaurando, me fortalecendo, me recuperando desse período de doze anos de governo. E, quando terminou o triênio – porque na ordem tudo funciona no triênio – houve capítulo da província, e fui nomeado vigário da província e formador da etapa de teologia, e passei a morar em Granada.

Depois desses três anos, aconteceu a eleição para essa nova Província Santo Tomás de Vilanova.

Reestruturação da Ordem dos Agostinianos Recoletos – A ordem já vinha no processo de reestruturação. Durante seis anos, ficamos refletindo, orando, fazendo discernimento comunitário sobre o tema da revitalização e reestruturação da ordem. No capítulo geral, se tomou a decisão de que a ordem passaria de oito províncias para quatro províncias. A província Santo Tomás de Vilanova, que era a província de que eu fazia parte, incorporou a província de Santa Rita de Cássia, com casas aqui no Brasil, e a Província de São José, com casas na Venezuela, no Peru e na Espanha.

Então a província Santo Tomás passou a ser uma província grande, com 300 religiosos, aproximadamente, 50 comunidades, e presente em cinco países: Espanha, Brasil, Argentina, Venezuela e Peru. E, nas eleições, novamente me colocaram nessas tarefas de governo.

E aí estão as coisas de Deus. eu fui embora do Brasil porque fui escolhido provincial, e voltei para o Brasil porque fui escolhido provincial. Porque no capítulo provincial, foi escolhido transferir a sede da Espanha para o Rio de Janeiro. Então, depois de 12 anos na Espanha, voltei a morar no Brasil, no dia 28 de dezembro de 2018, cheguei ao Rio de Janeiro.

Qual é a função do prior provincial?

A Ordem é organizada em províncias, porque é complicado para uma pessoa administrar uma ordem. O Prior Geral é responsável por todos os religiosos, é o representante, é a figura principal da ordem. Neste momento, é o frei Miguel Miró.

Uma província é um conjunto de comunidades, e nessas comunidades vive, uma comunidade religiosa, atendendo o ministério. Pode ser uma paróquia, um colégio, um seminário, uma missão. A nossa província está formada por 50 comunidades, nas quais estão 300 religiosos. Em cada país, há um religioso que é o vigário provincial, que, em comunhão com o provincial, ajuda no governo da província. Ele cuida especialmente dessa área. Como o Brasil é a sede da Província, não há um vigário para o Brasil.

Qual é o principal desafio, hoje, na Província Santo Tomás de Vilanova?

São três desafios hoje, mas o primeiro (e que marcou o capítulo provincial) é buscar a comunhão entre nós. Juridicamente já se deu a unidade entre essas três províncias, que hoje é só uma. Mas agora o desafio é que essa união se dê afetivamente. Que a gente se conheça, se preocupe uns pelos outros, se ame, se integre – viver essa unidade de almas e corações. Então esse é o primeiro desafio: comunhão de vida, comunhão provincial, comunhão local.

O segundo desafio é dar atenção às missões e às periferias. Nesse ponto, não estamos falando apenas de onde estão fisicamente as pessoas. É preciso lembrar que o papa Francisco também fala das periferias existenciais.

O terceiro desafio está voltado para a juventude e as vocações. A gente caminha em comunhão com a Igreja, e a Igreja neste momento quer dar esse protagonismo à juventude. Recentemente acontecei o Sínodo para o Jovens. E a Ordem também quer estar aí.

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