O céu? Só para quem tiver alma de criança

No fim do ano litúrgico, as celebrações nos recordam do nosso chamado e nosso destino. Convidamos frei João Antônio para que escrevesse uma breve reflexão tanto sobre os dias de Todos os Santos e de Finados.

No dia 29 de junho de 1981, no rio Paracauary, ilha do Marajó, delta do Amazonas, na cidade de Salvaterra, aconteceu o tradicional Círio fluvial em homenagem a São Pedro. Num determinado momento, o piloto do barco que transportava a imagem do santo fez uma manobra brusca e infeliz e a embarcação naufragou. Os afogados somaram 37, a maioria crianças.

O padre Frei Román, presente nesse barco, também morreu. Foi uma experiência que arrancou lágrimas de muita gente. Durante três dias os cadáveres foram aparecendo e eram trazidos até o trapiche por pequenos barcos de auxílio. As mães que perderam seus filhos iam repeti
das vezes até o barco de auxílio para identificarem seu menino… Era doloroso demais segurar o olhar nos rostos daquelas mulheres.

De repente, porém, aconteceu algo inesperado e fantástico naquele cenário lúgubre. Uma dessas mães mencionadas teve dois filhos desaparecidos. Após uma longa espera, o barco de auxílio trouxe um deles, já cadáver e em estado de decomposição, com o rosto deformado. Diante de tamanha dor, ela tratava de se consolar pensando “embora morto, pelo menos encontrei um dos meus meninos”. Foi então quando, de forma inesperada, um garoto bateu nas costas dessa mulher e lhe disse: “Oi, mãe!”. Ninguém podia acreditar naquela cena inusitadamente feliz. O menino esperto e bom nadador conseguiu se salvar daquela tragédia. Diante do filho vivo, nos olhos daquela mulher se misturavam de forma maravilhosa lágrimas de dor e felicidade que não paravam de cair sobre o rosto do garoto ao ser coberto de beijos.

A mãe desses dois meninos, anos depois, visitando o cemitério para rezar pelo filho afogado, com imensa paz no coração, agradecia a Deus, dizendo “Obrigada, Senhor, por me guardar um filho na terra e outro no céu”.

Calcula-se que, desde a aparição dos primeiros homens sobre a terra até hoje, já se passaram mais de dois milhões de anos. Gente, já pensaram quantos finados houve nesse tempo todo? Haja anjos para carregar tanta gente ou cemitérios para enterrar tamanho número de mortos!
(Lc 16,19-31).

A nossa vez ainda não chegou. E quando ela chegar, será que você ou eu estaremos preparados para ir ao céu? Sim, se tiver alma de criança… Aquele que não receber o Reino de Deus como uma criança, não entrará nele (Mc 10,15).

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